BACKHAND. Uma ou duas mãos?

BACKHAND

Duas mãos x uma mão quem ganha?
Analisamos todos os fatores que envolvem a escolha pelo backhand de uma ou duas mãos e dizemos qual a melhor opção. Mas lembre-se, seu conforto está em primeiro lugar, antes de mudar para uma ou duas mãos escolha bem e converse com seu professor antes de qualquer mudança.
Sérgio Ribeiro.

ESTE DEBATE NÃO É NOVIDADE. São inúmeros os textos discutindo o assunto. No entanto, em sua quase totalidade, eles são meramente descritivos apontando vantagens e desvantagens dos dois tipos de backhand, sem tecer uma conclusão definitiva de qual é o melhor. Isso é compreensível, pois basta apontar um deles como a melhor opção que algum fato surge para “desmentir” a tese.
Então, evitando o senso comum, sem medo de se posicionar, questionamos: existiria algum tipo de vantagem em escolher o backhand com uma ou duas mãos? Haveria uma maior tendência, em escala mundial, em optar por uma ou duas mãos? De maneira geral e abordando todos os fatores, seria um deles melhor que o outro? Por fim, estas perguntas possuem respostas?
Primeiro fator – Ponto de contato

Para definir qual backhand é melhor, vamos primeiramente levantar outras questões: qual é o aspecto mais relevante em um golpe? O que é mais importante quando se golpeia uma bola de tênis, em qualquer nível de jogo? Preparação, jogo de pés, efeitos, potência, equilíbrio, consistência, direção, fluidez, ritmo, soltura… Há vários candidatos, todos fundamentais, mas menos importantes que o ponto de contato.
Sim, cada golpe possui seu ponto de contato ideal. Essa é uma variável exata, específica e totalmente geométrica. Assim como temos CIC e RG, um golpe tem seu local espacial ideal para impactar a bola. Se impactarmos fora dessa zona, perderemos potência, controle, equilíbrio e, seguramente, haverá sobrecarga em alguma articulação e enorme risco de lesão.
Então, o tênis nasce no ponto de contato. Lembrando que o jogo é constituído de uma bola e um jogador, a zona de impacto seria a comunhão instantânea entre essas duas partes. Onde tudo se encontra, onde tudo é definido.
Infelizmente, o encontro entre a bola e a raquete não é um evento muito duradouro. É algo tão rápido que mal podemos imaginar. Imagine um segundo. Divida por 10. É pouco tempo, não? Então, divida novamente por 10. Agora é algo tão minúsculo que foge à nossa compreensão e às nossas noções de tempo. Mas não paramos por aí. Divida essa fagulha uma vez mais por dois. Encontraremos o valor de 5 milésimos de segundo (0,005 s ou 5 ms). Este é o tempo que as bolas demoram em média para entrar e sair das cordas da raquete!
Obviamente, qualquer ação humana é impossível de ser feita nesse intervalo de tempo. Enquanto impactamos a bola, nenhum ajuste, compensação ou ação pode ser realizada. Nesse ponto, há uma curiosidade. Após a bola abandonar as cordas, elas vibram intensamente. Esta vibração migra para o aro da raquete, fazendo-o vibrar também. Uma vez que as partes rígidas da raquete são atingidas, a vibração migra para o cabo, que transfere a vibração para a mão do jogador. No entanto, esse processo leva tempo: outros cinco milésimos de segundo.

O tênis nasce do ponto de contato entre bola e raquete, que
dura 5 milésimos de segundo

A vibração excita terminações nervosas da mão, que enviam impulsos até a medula, que finalmente comunica ao cérebro o estímulo: em média outros cinco milésimos. Nosso cérebro finalmente interpreta essa informação a nível consciente (é quando concluímos que golpeamos no ponto doce ou que impactamos fora do centro pelo tipo de vibração que sentimos). Essa interpretação também leva seu tempo: novos cinco milésimos.
Portanto, do princípio do evento até sua percepção, transcorreram cinco milésimos de segundo vezes quatro, ou seja, dois centésimos de segundo. Porém a bolinha não ficou parada esperando e, em dois centésimos, ela já se deslocou de 40 a 60 centímetros. Por isso é que vemos tantas fotos em que jogadores continuam olhando fixamente o local onde houve o impacto: olhando o vazio, pois a bola já se deslocou. Na verdade, é este o instante em que eles perceberam que golpearam. Quando sentimos que golpeamos a bola, ela já está meio metro na nossa frente!
Assim fica mais claro como não é tão simples golpear uma bola. Isso deve ser feito num local específico e preciso e não teremos a menor chance de “remendar”, corrigir ou fazer qualquer ajuste de última hora em nossa interação com a bola.
O ponto de contato é único em tempo e espaço e define plenamente a qualidade de um golpe. Enquanto um profissional impacta com precisão e simetria sob grande pressão de tempo, um amador consegue isso casualmente, mesmo com todas as condições favoráveis. Quem possui bons pontos de contato joga bem, isso é fato.
Então, sendo o backhand com uma mão um tipo de golpe e o de duas outro tipo, os dois teriam o mesmo ponto de contato por serem executados do mesmo lado do jogador? Resposta: NÃO. O revés com uma e com duas mãos possui pontos de contato diferentes e, por sinal, bem diferentes. E será exatamente essa diferença que apontará melhores vantagens para um lado ou para o outro. Seguem as diferenças nos três eixos:

B) EIXO LONGITUDINAL >> Aí aparece a primeira diferença. Enquanto o revés com uma mão tem boa tolerância entre o joelho e a parte central do tronco, o revés com duas mãos tem como zona do joelho até um pouco acima dos ombros, pois conta com a ajuda da mão não dominante em bolas mais altas, conseguindo aproximadamente 40 centímetros a mais nessa dimensão

C) EIXO FRONTAL (OU TRANSVERSAL) Aqui surge a mais significativa das diferenças. Este eixo define o quanto devemos golpear a bola na frente do corpo. No caso das duas mãos, em média, essa distância é de aproximadamente 45 cm. No entanto, para uma mão, a distância aumenta para 65 cm. Ou seja, o ponto de contato ideal para uma mão é 20 cm mais à frente do que com duas. É necessário “20 cm a mais de timing”. Se colocarmos essa diferença em termos de tempo, temos que o caminho percorrido pela raquete (de trás até o ponto de contato), com uma mão, leva 0,13 segundo. Enquanto que, com duas, apenas 0,09 segundos. Ou seja, o tenista tem quatro centésimos a mais de tempo quando golpeia com duas mãos.

Ponto de contato para backhand com duas mãos é cerca de 45 cm à frente do corpo. Para uma mão, cerca de 65 cm, o que dificulta o timing perfeito do golpe.

Sendo assim, caso o jogador com uma mão não consiga encontrar a bola 65 cm à frente do corpo, ele fatalmente atrasará o golpe. Com duas mãos, há uma tolerância maior. Ao não conseguir impactar a bola aos 45 cm, o jogador conta com a ajuda da mão não dominante para estabilizar contatos ligeiramente atrasados. Isso está longe de ser ideal, mas oferece uma sobrevida às bolas que ultrapassaram um pouco essa delicada fronteira. Portanto, além de exigir menos timing, o backhand com duas mãos é mais flexível pela ajuda da mão não dominante.
O revés com duas mãos oferece maior zona de contato em bolas altas e
exige muito menos timing. Sendo assim, é um ponto de contato
mais fácil e amplo, menos restrito e exigente
Conclusão 1
Agora já temos um panorama mais claro da situação. O revés com duas mãos nos dá maior zona de contato em bolas altas (e hoje como todo mundo usa muito o topspin, as bolas dificilmente vêm na linha da cintura) e exige muito menos timing. Sendo assim, é um ponto de contato mais fácil e amplo, menos restrito e exigente que o ponto de contato com uma mão.
Como o tênis é uma guerra de tempos e espaços, e nossos adversários irão fazer o possível para dificultar nossa tarefa de atingirmos a bola em boas condições, estarmos atrelados a um golpe que necessita de maior precisão e tempo aumenta nossas dificuldades. Assim, o revés com duas mãos é amplamente vantajoso: menos timing, mais flexibilidade e maior zona de ação.
Segundo fator – Velocidade do golpe
Apesar de o revés com duas mãos ter ganhado o primeiro set da disputa entre backhands, outros quesitos devem ser colocados em questão. Um deles é a velocidade imprimida na bola. Estudos revelam que não há diferenças significativas de velocidade atingida pela cabeça da raquete entre os dois golpes. O que há, sim, é uma importante e sutil diferença em como a velocidade da cabeça da raquete é desenvolvida.
O jogador com duas mãos é capaz de produzir um pico de aceleração justamente antes do instante de impacto, ao contrário do que joga com uma mão, que acelera uniformemente e gradualmente a cabeça da raquete. Essa habilidade provém do uso do par de mãos em forma conjunta. Perto do contato, a mão não dominante é bruscamente acionada à frente da mão dominante (o que usualmente chamamos de mão sobre mão), aumentando instantaneamente a velocidade da cabeça da raquete.
O uso conjunto das duas mãos atrasando a aceleração máxima da raquete revela, de forma tardia, a direção do tiro, gerando uma maior camuflagem do golpe. Essa virtude de esconder melhor o golpe é sumamente importante. Ao demorar mais tempo para perceber a direção da bola, o adversário terá menos tempo para se posicionar. Dessa maneira, podemos interpretar essa situação como se o golpe fosse mais rápido do que verdadeiramente é, pelo fato de tirar mais tempo do rival.
Em alto nível, essa virtude ganha ainda mais força. O tempo médio de vôo da bola entre os profissionais, em ralis de fundo de quadra, é de 1,2 a 1,5 segundo. Para serviços em torno de 220 km/h, este tempo é de 0,72 segundo. Sendo o tempo de reação humana em torno de 0,3 segundos, como alguém poderia realizar os deslocamentos para cobrir o saque e os golpes de fundo de quadra em 0,4 segundo e 1,0 segundo, respectivamente?
Por mais rápido que sejam os jogadores, não há tempo de reação. O que ocorre então? Apenas 10% dos saques na ATP são aces, o que mostra que os jogadores conseguem trabalhar com esse 0,4 segundo. Qual a mágica? Simples: eles saem antes. Uma habilidade de percepção aguçada (fruto de muito treinamento) aliada a um enorme banco de dados prévios permitem aos jogadores participarem antes da ação: antecipação.
Conclusão 2
A antecipação é o ar que o jogador respira em alto nível. Sem ela, não haveria tempo. Nesse contexto, esconder os golpes e conseguir maior camuflagem, dificultando uma leitura prévia, é o mesmo que sufocar seu oponente. A capacidade de os jogadores de duas mãos em atrasar o pico da aceleração da cabeça da raquete, definindo tardiamente a direção do tiro, quita a antecipação, que se traduz em menos tempo de resposta e, portanto, golpes relativamente mais rápidos.

Terceiro fator – Topspin

No tênis atual, imprimir rotação na bola é tão importante quanto gerar altas velocidades de translação. A velocidade de rotação da bola em seu próprio eixo denomina-se “peso da bola”. Toda bola golpeada realiza um movimento balístico. Como o tamanho da quadra é limitado, a velocidade de saída da bola ao ser golpeada também é limitada, pois, caso contrário, ela sairia em profundidade. Portanto, a solução encontrada pelos jogadores para conseguirem um maior limite de velocidade de saída foi imprimir rotação na bola.
As altas rotações fazem com que, durante o vôo da bola, surja uma força de empuxo para baixo, fazendo com a trajetória seja desviada em direção ao solo. Isso ocorre porque a bola arrasta, em seu movimento rotacional, significativas partículas de ar, que por sua vez encontram partículas de ar enquanto se movimenta. Isso faz com que haja um acumulo de partículas na parte superior da bola. O resultado é zonas de alta pressão na parte superior e de baixa pressão na parte inferior: surge uma força vertical para baixo!
Bolas com muito topspin “caem” mais rápido. Isso permitiu aos jogadores golpearem com muito mais velocidade e verem suas bolas entrando ajudadas pelo empuxo. Também permitiu golpes mais altos, que saem da linha da cintura do oponente. Esta é, sem dúvida, a mudança mais significativa no tênis atual comparado com o que se via décadas atrás. Se spin é tão importante nesse cenário, os jogadores conseguiriam gerar mais spin com uma ou com duas mãos?

Conclusão 3
Do ponto de vista mecânico, a rotação da bola depende unicamente da componente vertical da velocidade da raquete. A capacidade que os jogadores possuem em descerem e subirem velozmente a cabeça da raquete antes do impacto é que definirá a rotação da bola. Como os jogadores de uma mão golpeiam mais na frente, possuem mais espaço para descer e subir a raquete. No entanto, jogadores de duas mãos possuem a significativa ajuda da mão não dominante para aumentar a velocidade vertical da cabeça da raquete, principalmente em situações de pressão de tempo. Em ambos os casos, pode-se gerar muita rotação: com uma mão através da trajetória da raquete, com duas usando um maior número de segmentos. Há eficiência em ambos ao casos.
Quarto fator – Firmeza no golpe
Como efeito e rotação não são determinantes em apresentar maiores vantagens na escolha de uma ou duas mãos, resta analisar o desenvolvimento de ambos os golpes. Como o próprio nome diz, backhand significa costas das mãos. Quando golpeamos com uma mão, mostramos essa parte da mão para a bola. Dessa maneira, quem fornece firmeza no instante em que a bola exerce força contra a raquete são os dedos que seguram a raquete. Com duas mãos, a raquete está apoiada na palma da mão não dominante e esta fornece maior estabilidade e firmeza na hora de impactar.

Com duas mãos, a raquete está apoiada na palma da mão não dominante e esta fornece maior estabilidade e firmeza na hora de impactar.

Conclusão 4
Essa diferença é muito significativa para os iniciantes, principalmente crianças, que ainda não desenvolveram força e coordenação nas mãos para impactar a bola. Assim, é comum que eles busquem utilizar a mão não dominante como fonte de apoio. Além disso, estudos mostram que jogadores em desenvolvimento conseguem gerar mais força com duas mãos. Portanto, será muito natural que crianças e jovens que estão se envolvendo com o tênis busquem a ajuda da mão não dominante.
Quinto fator – lateralidade e olho dominante


Olho esquerdo mais próximo da bola no contato com duas mãos. Muito confortável para jogadores cruzados, mas um verdadeiro drama focal para homogêneos.

Se o backhand de duas mãos apresenta pontos de contatos mais acessíveis, melhor camuflagem e facilidade no aprendizado e desenvolvimento, porque temos tantos jogadores que são exitosos com uma mão?
São várias as razões. O revés com uma mão é mais difícil, mas pode ser perfeitamente dominado através de treinamento sistemático. Muitos jogadores têm dificuldade em usar seu lado não dominante, e a mão esquerda, que teoricamente seria de grande ajuda, passa a ser um obstáculo. É natural que eles busquem livrar-se desse inconveniente e golpear com uma só mão.
Outra questão são os olhos. Um de nossos olhos é dominante. Em 70% dos casos, o direito é o dominante. Quando tanto o olho quanto a mão são dominantes no mesmo lado, dizemos que temos uma pessoa homogênea. No caso de olho e mão manifestarem sua dominância em lados opostos, denomina-se cruzado. Como o número de canhotos é em torno de 10%, é fácil ver que a maioria das pessoas são homogêneas.
Estudos revelam que os jogadores tendem a privilegiar o olho
dominante no momento do impacto e isso é um fator de peso
para que homogêneos adotem o revés com uma mão

Conclusão 5

O olho direito muito mais próximo da bola no contato com uma mão. Convite irrecusável para jogadores homogêneos.

No tênis, sempre se está de lado em relação à quadra para golpear. Consequentemente, um dos olhos estará mais perto da bola quando ela se aproxima. Estudos revelam que os jogadores tendem a privilegiar o olho dominante no momento do impacto. Um homogêneo, então, golpearia com apenas uma mão bem mais confortavelmente que um cruzado. Como o ponto de contato é bem mais na frente, o olho dominante estaria mais perto do ponto de impacto, propiciando maior conforto e destreza. Quem golpeia com duas mãos, impacta mais atrás e acaba ficando com o olho do lado não dominante perto da bola. Caso a pessoa seja cruzada, ela se sentirá bem confortável com isso. No entanto, se for homogênea, terá maiores dificuldades em acompanhar a bola com os olhos nos momentos finais do golpe. Especialistas mostram que essa característica é extremamente relevante e um fator de peso para que homogêneos adotem o revés com uma mão.
Outros fatores – Desenvolvimento do golpe e estilo de jogo
Além da lateralidade, há outros fatores que estimulam os adeptos de uma mão. Quem aprendeu primeiro o slice com uma mão como alternativa de backhand, dificilmente vai usar duas para executar o revés com topspin. Portanto, o encaminhamento do desenvolvimento dos golpes de um jogador é um fator decisivo na escolha.
Padrões táticos são elementos também extremamente relevantes. Jogadores que costumam ir à rede constantemente, e portanto voleiam muitas vezes com uma mão do lado esquerdo, terão forte tendência em utilizar uma mão nos golpes de fundo. Quem não se lembra da história de Pete Sampras, que jogava com duas mãos até os 15 anos e mudou para uma mão quando começou a enfatizar seu jogo de rede? Além disso, como padrões táticos estão muito conectados com a superfície que se joga, indiretamente o piso também influi na decisão.
Lateralidade, histórico de desenvolvimento do golpe, superfícies e padrões táticos mantém vivo, mais que nunca, o revés com uma mão, que acaba levando pequena vantagem nesses aspectos.

Conclusão final
A conclusão final aponta maiores vantagens quando se adota o revés com duas mãos, mas este não consegue ser absoluto. Muitas características relevantes dos jogadores se encaixam melhor na mecânica de uma mão, garantindo a permanência e sucesso desse golpe. Finalmente, analisando as mudanças técnicas das últimas décadas, vemos, estatisticamente, esse comportamento. Se na época da raquete de madeira eram poucos os casos de duas mãos, hoje o cenário é bem diferente.
Atualmente, apenas 35% dos jogadores no masculino e 10% no feminino utilizam o backhand com uma mão. Vendo o gráfico, percebe-se uma forte migração de uma mão para duas. Esta é, talvez, a maior prova das vantagens de se jogar com duas. O tênis fala por si só e cabe a nós apenas interpretá-lo. Game, set, match para o backhand de duas mãos!

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